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Com o tempo, descobri o que era cuidar de mim

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Sempre fui uma criança muito aluada. Olhava pela janela as estrelas, com a mão no queixo e os meus olhos viajavam por mundos que eu imaginava e criava constantemente. Era sempre difícil voltar à realidade.
Aquele lugar da minha cabeça era maravilhoso e eu ali sentia-me sempre feliz! Os meus pais e os meus irmãos chamavam-me muitas vezes à atenção, para descer à terra, e às vezes gozavam comigo porque eu apanhava as conversas a meio e dizia sempre algum disparate, como se estivesse bêbeda de sonhos. Mas fui sempre assim; nem sempre gostei de o ser. As professoras ralhavam muito comigo na escola. Não brincava como as outras crianças, elas gostavam de ficar a fazer sorrisinhos para os rapazes e já traziam laços e pulseiras da moda.
Andei numa escola onde o recreio tinha uma mata cheia de árvores. Achava-me parecida com uma suricata, pendurava as pernas nas árvores e ficava lá, de cabeça para baixo. As minhas brincadeiras eram sempre agitadas, gostava dos desafios de subir às árvores e adorava ficar cheia de terra. Quando chegava a casa da escola, a primeira coisa que fazia era atirar a mochila para cima da cama, tirar os sapatos e fazer o pino. Tinha o objectivo de apanhar coisas com a boca que punha no chão. Sem querer, desenvolvi uma força brutal nos braços, mas não porque gostasse do exercício! O que eu gostava era dos desafios! Apesar de ser muito esguia e com traços muito femininos, fui sempre uma Maria Rapaz, e comprar roupas, ir ao cabeleireiro ou ligar a rapazes, nem na adolescência me interessava muito. Preferia ir à missa e tinha velas de todas as cores no meu quarto, cada uma simbolizava um sentimento. Escrevia cartas às minhas amigas e sonhava com o amor de um Príncipe como os da Disney.
Cresci sem olhar para o meu corpo. Sempre fui magra e como não parava quieta, tinha uma boa preparação física. Os elogios iam surgindo naturalmente sem eu ter de fazer nada, e eu não lhes ligava muito, porque o que me interessava era este mundo cor de rosa, onde eu vivia. Cuidar do meu cabelo, escolher roupas ou cuidar da minha pele, foram coisas que só muito tarde me começaram a interessar. Tinha a sorte de me alimentar bem e isso era meio caminho andado para que estivesse sempre bem e com saúde.
Passei a perceber com a idade que algumas asneiras não podiam ser feitas: dormir com maquilhagem ou deixar a pele secar de tal forma que chegava a doer. Foi aí que fui descobrindo os meus momentos para cuidar de mim, quase como momentos de meditação. Passei a por creme no corpo (sempre) e principalmente a lavar a cara todas as manhãs e antes de dormir. Lavar o cabelo com um bom champô e uma máscara de vez em quando – fica perfeito. Talvez tenha sido uma criança diferente das demais, mas acho que comecei a interessar-me pelas coisas mundanas na altura certa. Hoje, dá-me muito mais prazer cuidar de mim, porque ainda é uma descoberta recente, e faz-me sentir tão bem que são esses momentos que me ajudam a viajar para o mundo cor-de-rosa, e a ser eu outra vez, agora que a realidade se tornou muito mais palpável, com as responsabilidades da idade.

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