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Sinto que não tenho tempo

Não tenho tempo, sinto que não tenho tempo para me sentar a escrever poemas, a tocar todas as peças de piano que queria, a ler um livro, ou todas as coisas que queria fazer. Às vezes, enquanto lavo a loiça, sonho com as coisas por fazer. Há quanto tempo não leio o meu ídolo Eça de Queirós? Ou me sento no sofá a ver todos os filmes que tenho em lista de espera? Há quanto tempo não fico deitada na praia simplesmente a apanhar sol ou a dar mergulhos no mar? Há quanto tempo não viajo só para conhecer aquele lugar, há quanto tempo falto aos jantares de anos dos amigos de infância?

Gostava de ser a mãe que consegue estar em todo o lado ao mesmo tempo, poder ter três, quatro, cinco filhos, e sentir que estive inteira para cada um deles. Gostava de conseguir treinar todos os dias taekwondo, de passar duas horas no ginásio, de tirar um curso de fotografia, de fazer surf, de tirar um curso de francês. Gostava tanto de ir à Índia, a Bali, fazer todos esses workshops de yoga que vejo os meus colegas fazer…
Mas já estou a escrever o meu segundo livro de poesia, a escrever um romance, a fazer um novo disco e outro disco especial, estou com os meus filhos muito mais tempo do que imaginei conseguir, levo a minha música a todas as cidades e também ao resto do mundo. Queremos ter mais tempo, mas já fazemos tanta coisa que nos faz feliz: juntar dinheiro para dar o mínimo aos nossos filhos. Nem sempre conseguimos desfrutar das conquistas, e a vida vai passando, com o sacrifício que lhe é inerente e com os momentos e as coisas surpreendentes que ela de repente nos traz quando não estávamos à espera, e então dizemos: “Uau! Nunca tinha pedido isto, mas sabe tão bem, às vezes melhor do que o que tinha sonhado”. E por não termos pedido, valorizamos mais. Nem sempre temos tudo o que queremos, muitas vezes passamos por coisas que não queríamos. Essa surpresa da vida pode ser assustadora, mas para mim, traz também a magia. E é a magia que dá este sentido a tudo o que vemos para trás e o que projectamos para a frente. Vivemos no presente e não há nada que possamos fazer senão aproveita-lo ao máximo; olhar para ele como ele é, aceita-lo e saboreá-lo com o que há.
Há as coisas que não temos e que queríamos ter. Mas há outras que muitos queriam e não têm e nós, que as temos, não as sabemos valorizar. Então esse é o mote: não pedir. Sonhar, sim, mas acima de tudo VIVER! Viver o aqui e agora. E agradecer. Enquanto houver simplicidade para agradecer o que há, nunca faltará a felicidade. Mesmo que venha de mão dada com a tristeza.

Não é a beleza da vida isso mesmo? Ir saboreando aos poucos, ir conquistando os poucos, ir ganhando a disciplina lentamente, nunca desistirmos dos nossos sonhos.

Acredito que nada acontece por acaso, que tudo tem um sentido na vida. Acredito que um dia vou chegar ao cimo do monte que, passo a passo, demorei a subir, e vou ter muito mais tempo – para subir o próximo monte de forma mais perfeita e completa do que a que tenho conseguido subir.
Um dia, depois de todos os montes que me faltam escalar, vou-me sentar no alto, a ver o mar!

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